segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Dos acasos e das oportunidades



Completei neste início de outubro meu primeiro mês de estágio doutoral em antropologia na City University of New York (CUNY). Muito do que tenho para falar sobre essa universidade vai de encontro daquilo que outros Fulwriters já destacaram aqui. A arquitetura dos espaços é de encher os olhos; os acervos e serviços bibliotecários são formidáveis; vários nomes prestigiosos integram o corpo docente e o calendário de eventos é tão diversificado que exige um esforço hercúleo para ser acompanhado.

A CUNY é uma universidade pública que possui campi espalhados pelos cinco distritos da cidade de Nova York. Quando se usa o metrô por aqui é bastante comum encontrar propagandas da universidade que destacam justamente essa acessibilidade, que não pretende ser apenas territorial, mas também financeira, por meio de free tuitions. Trata-se, assim, de uma instituição afinada às políticas multiculturais defendidas nos Estados Unidos.

Estou tendo a oportunidade de experimentar dois desses espaços universitários aos quais meu professor supervisor aqui é vinculado: o college que fica no distrito do Queens e o Graduate Center, em Manhattan, onde se concentram os cursos de doutorado da CUNY. No primeiro, tenho auxiliado meu supervisor em uma disciplina para alunos de graduação e, no segundo, estou cursando uma disciplina com estudantes de doutorado.

No Queens College é possível sentir imediatamente a diversidade dos alunos que ali estudam. Uma rápida andada pelo campus e você percebe a miscelânea de culturas – são ecos africanos, hispânicos, islâmicos, hebraicos, indianos, chineses, coreanos. No Graduate Center, porém, essa pluralidade diminui e não por acaso.

Ouvindo, conversando e lendo publicações do movimento estudantil, eu me vi numa universidade que vive uma série de tensões para efetivar plenamente sua proposta multicultural. Essas tensões são reveladoras de diferenças entre as universidades públicas e privadas norte-americanas, embora aqui todas sejam, a priori, pagas. E espelham também, como num microcosmos, conflitos pungentes na sociedade estadunidense como um todo.

A revista Advocate, encabeçada pelos alunos dos cursos de doutorado do CUNY, têm sistematicamente polemizado os vultosos salários de alguns administradores e docentes em detrimento da maioria dos professores e funcionários; o congelamento das contratações professorais e a utilização da mão de obra de doutorandos a remunerações não condizentes; a resistência à mais ampla implementação de ações afirmativas raciais e de gênero; a proibição de protestos nos espaços universitários.

Diante de tudo isso, eu posso dizer que, como na universidade, existem coisas de se realmente tirar o chapéu nos Estados Unidos. No dia a dia em Nova York, há algumas que eu aprecio por demais. Por exemplo, os inumeráveis espaços de convivência públicos, gratuitos e bem cuidados, aos quais você chega por meio de um transporte público totalmente integrado e acessível. Também me chama a atenção a atmosfera propícia a debates pulsantes, seja na sala de aula, em eventos culturais ou no cotidiano das ruas, sobre os temas mais diversos. Falar é um direito e ouvir o outro um dever. Mas nem tudo são flores. Nos corredores do metrô nova-iorquino, por exemplo, é entristecedor o grande número de homeless people que ali vivem e experimentam na pele as agruras de um avassalador sistema financeiro neoliberal.

Coincidência ou não, toda essa vivência, tanto na universidade, quanto na cidade, tem contribuído para pensar meu tema de tese, para além dos livros, bases de dados e especialistas que eu planejei consultar por aqui. Minha pesquisa tem por foco uma reflexão antropológica sobre a agência da noção de bullying no contexto brasileiro. Os usos desse conceito no Brasil e nos Estados Unidos pelas pessoas em seu dia a dia, certamente, guardam distinções, mas têm em comum o fato de perpassarem marcadores de diferença semelhantes, que tem a ver com etnia, gênero e poder aquisitivo. Ou seja, os mesmos elementos que permeiam conflitos universitários e sociais que eu expus aqui.

Assim, estar justamente nessa cidade e nessa universidade tem muito daquilo que a antropóloga Mariza Peirano classifica como “artimanhas do acaso”. São daqueles acasos que geram oportunidades para o exercício do pensamento que os cientistas das Humanidades não devem nunca se privar.

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

5 favs da Universidade do Hawaii

Fazer doutorado sanduíche (ou qualquer tipo de intercâmbio) no Hawaii já é motivo pra comemorar por si só. Sabe aquela frase (sem querer soar arrogante): "eu moro onde você passa férias"? Pois é, massa mesmo. Foi por isso que, quando recebi a notícia que iria morar em Honolulu por 9 meses, fiquei muito feliz já de cara. Mas nem imaginava o quanto eu iria curtir estar aqui e, principalmente, o quanto eu iria me apaixonar pela UH (Universidade do Hawaii). Bem, um mês de intercâmbio depois, só posso chegar a um veredito: estou amarradona nessa universidade. E, é por isso que resolvi dividir com vocês os meus 5 favs (cinco aspectos favoritos) da UH. Vamos lá?


1- A Rainbow Shuttle Uma das coisas mais cools da UH é o transporte. Honolulu, por si só, já foi premiado por ter o melhor transporte público rodoviário dos Estados Unidos. De fato, posso afirmar que só tive boas experiências até agora pegando busão pela cidade. Mas, uma das coisas legais da UH é que, como opção de transporte alternativo, a universidade oferece um serviço gratuito para alunxs, servidores e comunidade. São pequenos ônibus ou vans (difícil traduzir shuttle) que circulam entre 7 da manhã e 6 da tarde, partindo da universidade e seguindo para bairros próximos. As shuttles comportam 28 pessoas por vez, tem ar-condicionado e fazem diversas paradas para deixar e pegar pessoas no caminho. E o melhor de tudo, não custa nadinha, nadinha. Incrível, né? O transporte é super seguro e confortável e os motoristas são sempre muito gentis e divertidos. Geralmente, eles estão ouvindo música baixinho então a gente acaba tendo até trilha sonora durante a viagem. É para amar ou amar?

2- Verde, Verde, Verde, por todo lugar! O campus de Manoa da UH é lindamente verde! Fico apaixonada com tanto clorofila, rs. Além de limpo e muito bem cuidado, o campus é bastante colorido e repleto de diversas plantas. São mais de 4.000 árvores e 500 espécies diferentes. Além disso, o campus conta com vários parques e jardins, incluindo um Jardim Japonês encantador. Assim fica fácil querer estudar ao ar livre!


3- O espirito do Aloha Todo mundo acha que Aloha quer dizer "olá" e "tchau" em Hawaiiano. Mas a palavra tem um significado muito maior (e mais profundo) do que isso. Aloha é quase um guia espiritual, um estilo de vida, uma forma de pensar as relações sociais e com a natureza. Aloha está relacionado à amor, paz, solidariedade. Por causa disso, várias ações que preservam as relações entre pessoas e a relação do ser humano com a natureza são normalmente praticadas dia a dia na cultura Hawaiiana. E, claro, a UH não podia ficar de fora. O espírito do Aloha está espalhado pela universidade todinha. Um dos exemplos que eu mais gosto fica no meio do campus: a ideia de evitar o desperdício. Sempre que você estiver comendo alguma coisa e não quiser mais (porque está cheix, porque não gostou, etc), você não precisa jogar a comida que sobrou fora. É só colocar no frigobar free! Uma geladeirinha que fica no campus e serve pra isso mesmo: deixar comida que você não quer mais. Daí, se alguém estiver com fome, passa ali, pega a sua comida, e come. Legal né? A mesma lógica serve para lojinha free onde as pessoas deixam roupas e outros pertences que não querem mais. Incrível, não é mesmo?

4- A biblioteca Sinclair A UH conta com duas bibliotecas principais que são lindas e encantadoras: a Hamilton Library e a Sinclair Library. Ambas tem ótima estrutura, espaço para estudo, acervo invejável, internet, enfim, inúmeras vantagens que toda biblioteca deveria oferecer. Mas, das duas, a minha preferida é a Sinclair. Por quê? Dá uma olhada no espaço de estudo que ela oferece. Aberto! Sem ar condicionado! Maravilha, né? Claro que além desse espaço, a biblioteca tem outros também reservados para estudo com ar condicionado, mais fechados e tals. Mas esse ai é aberto, pertinho da natureza e, dá pra trazer comida e bebida. Advinha onde eu passo maior parte do meu tempo quando estou estudando na UH?


5- Os eventos Como qualquer outra universidade americana, a UH está sempre promovendo eventos para alunxs e comunidade. E eu simplesmente adoro esses eventos. Muitos deles são promovidos pelos próprios alunxs como forma de incentivar a integração. O último que fui teve comida local sendo servida e música na parte central do Campus. Agora, estou interessada nesse ai de poesia. Depois conto como foi!


Bem, ai estão alguns dos motivos por eu gostar tanto dessa universidade que conheço à tão pouco tempo. Espero que vocês tenham tido um gostinho da UH com esse post. Recomendo a visita à quem tiver a chance! Passar um tempinho aqui vale muito a pena!